ILHA DO FAIAL

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ILHA DO FAIAL

        «A Horta abre-se em prateados sorrisos de janelas e floridos jardinetos. Pelos telhados, saltitam agora errantes cintilações de vidraças, e muito pesam e avultam, como abcessos no semblante da velha cidade portuguesa, os compactos casarões das colónias estrangeiras que guardam e administram o cabo submarino. Circulam biocos a envolver de modéstia a mocidade e a velhice das nossas patrícias que ligeiramente passam e se cruzam, seguras de andarem defendidas de maus olhados e tentações. Talvez não... Na meia claridade do capuz, veem-se flamejar lindos olhos, de portuguesa doçura e sabido e que de pequenas chamas se ateiam os maiores incêndios...

       Aqui e alem, como cicatrizes na vetusta fisionomia do burgo, topa-se com os vivos sinais das convulsões vulcânicas, varias casas destruídas ou tenazmente reconstruídas, disputando-se aos poderes plutônicos o assento da velha cidade, cujo primeiro donatário o flamengo Josse van Hurtere aceitou das mãos do Infante D. Fernando, sobrinho e filho adoptivo do Infante D. Henrique. Casando ele com uma portuguesa, numerosa e ilustre viria a ser a descendência desta união; e do seu próprio apelido de família talvez proviesse o nome de Horta, capital da Ilha.

Pela cidade, muito de relance se prendem os olhos algumas fachadas de barroco insular, nobres casas e templos, dos quais sobressai a igreja do Colégio dos Jesuítas, com suas ricas talhas e azulejos de bom e largo desenho.

       A primeira coisa a fazer quando se chega á cidade da Horta, antes mesmo de lhe visitar os soberbos monumentos, é meter pela marginal e subir á  ponta da Espalamaca, cruz alta e imagem de Nossa Senhora a imbui-la de uma solenidade um pouco convencional e amaneirada, que logo se esquece quando chega o êxtase com o espetáculo daquela vista: «Em poucos minutos, a vista espanta... a ponta de Espalamaca, a dominar os horizontes que por terra se alargam, da banda do norte até á Ponta da Ribeirinha, continuando na serra de Pedro-Miguel, Cabeço-Gordo e Caldeira, nomes que nada dizem nesta pagina. Mas sempre poderão recordar a quem alguma vez in situ os ouviu, o testemunho do esforçado trabalho de desbravamento e povoamento, para fazer renascer Portugal nestes mares e nestes píncaros, tão docemente beijados e de frescas auroras. Na mesma exuberância vegetal em que as folhagens se confundem pela tremulina azul, em segundo plano se sucedem Monte-Carneiro, os declives e hortas verdejantes do Vale dos Flamengos, a recordar os estrangeiros que por bons ofícios da nossa Infanta D. Isabel, duquesa de Borgonha, vieram estabelecer-se na ilha por interesse seu e serviços ao rei de Portugal. E todos coroados de edifícios ou de risonhas moradas que convidam ao repouso e contemplação.

Outros montes se sucedem a encadear-se e a disputar primazia de galãs: das Moças, o Queimado, o da Guia em que a vista se afoga e perturba na inquietação da luz e das neblinas que sempre e sempre, em retoques insatisfeitos, vão passando por árvores, pedras e socalcos. Como suspensos ali em vôo plano. surpreende sempre toda a cidade aberta ao sol do oriente, oferecendo em novas construções a revelação dos fastos do seu martírio, porque foi perdendo algumas feições de antiga nobreza. Por toda ela, como suplicas, sobem as torres do Carmo, do Colégio, de S. Francisco, e lá mais longe, descobre a sua face triste a Igreja de Nossa Senhora das Angustias onde sempre rezaram e choraram as famílias dos pescadores e marítimos.

Erguendo os olhos da doca, cortando com a vista o Canal, e na costa fronteira, á mão de semear, branquejam e sorriem de paz as povoações da Madalena, Criação-Velha, Candelária e Ponta-de-São-Mateus. E sobre todas, orgulho da terra e humilhação do Mar, o Pico Alto, cintado de nuvens, a aparecer e a desaparecer, por fatal lei de inconstância de minuto a minuto... » (Hipólito Raposo, obra citada, pág. 337) Dois moinhos á maneira flamenga e de um vermelho vivo recortam-se contra o vulto do Cabeço Gordo e da Caldeira que e agora o destino a seguir. Subindo, «... por entre hortênsias, léguas e léguas floridas de hortênsias, a estrada sempre a desdobrar-se, a fugir, a fugir, como a levar-nos em vertigem de azul ás portas de palácio encantado. Renques que não despegam, a tragar alamedas em carne de flores, azuis caminhos para o céu azul que docemente se abre e rasga, de cerro em cerro.» (Hipólito Raposo, obra citada, pág. 343)

E chegando ao fim desta estrada de encanto com o Cabeço Gordo, fofo de verde, ainda longe de estar vencido e a desafiar para a sua escalada. Dois pontos brancos que se movem quase no topo, com mais coragem. É Preferível, claro atravessar o pequeno túnel que conduz á magia da gigantesca caldeira, com um perímetro de cimeira de 2 km e uma profundidade de 500 metros. É uma visão fascinante, ainda telúrica, embora o magma efervescente tenha sido substituído, há milhares de anos, por cândidos tapetes de verdura.

Uma pequena cratera bem lá no fundo dá porem a imagem do inferno que ali se passou, pois terá sido o último espasmo, o derradeiro estertor de tão impressionante cadáver vulcânico, que talvez quisesse ressuscitar ou dar um ar de maquiavélica presença quando, junto há pequena laguna que desta altura parece mais um pântano, do fundo daquele abismo surgiram fumarolas sulfúricas em 14 de Maio de 1958 mantendo-se aquela ameaça até Outubro, época em que findou a actividade vulcânica e sísmica do vulcão dos Capelinhos. Perante tal imagem de cataclismo ígneo, não se ousa sequer falar, ou apenas murmuramos, em voz baixa, em total, subjugado respeito. E chamou-se esta ilha de Ventura! Quando muito, de aventura, a eterna aventura do Homem em luta desigual com a Natureza.

 

       Avançando para o percurso do perímetro da ilha. Está a Feteira e Castelo Branco que são povoações baixas, de costa pouco acidentada, sendo a última o local do aeroporto que parece perder-se no mar. Referencia especial á Igreja da Feteira com duas peças notáveis, o candelabro em prata do séc. XVII e o magnifico paramenteiro da sacristia em jacarandá, dos moveis mais requintados que se encontra nas igrejas dos Açores.

Chegando ao Varadouro encontram-se casas de simpática frontaria com boas quintas e local aprazível para banho e almoço.

O Capelo tem uma bonita capela implantada em adro a que conduz a larga escadaria.

 Partindo a caminho de local sinistro, o vulcão dos Capelinhos. Já vê lá ao longe o farol abandonado em zona completamente escalvada e árida, antes de se chegar ao museu, impecável, que por fotografias, gráficos e folhetos elucida completamente sobre aquele drama que ocorreu em 1957 e 58, a mais recente manifestação vulcânica açoriana para alem da tragédia do sismo de Angra do Heroísmo, de 1 de Janeiro de 1980.

A partir do dia 16 de Setembro de 1957, sentiram-se nesta ilha mais de 200 pequenos abalos de terra com os epicentros localizados primeiro a leste, passando depois ao extremo oeste. E a 27 começou uma erupção submarina, um quilometro ao largo da ponta oeste, junto aos ilhéus dos Capelinhos, com 4 chaminés de vapor de água e gases, até que se concentrou na parte ocidental do alinhamento primitivo em cone principal, com projeção de materiais piroclasticos, lapilli, areia, pó e pedra-pomes que flutuava no mar. Os jactos atingiam as vezes mais de 1000 metros e eram tão abundantes as cinzas que em breve se formou uma pequena ilha. Em Novembro criou-se um istmo que foi crescendo e que pela acção do mar e pelos materiais emitidos pela cratera, já tinha, em Dezembro, 600 metros de largura. No dia 16 abriu-se uma fractura e surgiram 7 repuxos de lava incandescente que chegavam a atingir 15 metros de altura. A actividade foi evoluindo intermitentemente e com fases calmas e de grande intensidade, em Fevereiro e Março de 58, cujas explosões de cinza atingiram 1800 metros desaparecendo os ilhéus dos Capelinhos de baixo das cinzas. Ás vezes aconteciam afundamentos e o istmo desaparecia; outra, vezes grandes blocos de pedra incandescente caiam na área do farol.

Crise grande foi também a de Maio e Junho, num total de 580 sismos. A 14 de Maio, na própria Caldeira do Faial, surgiram fumarolas com cheiro sulfuroso depois de se ter ouvido um estrondo na povoação dos Flamengos. Uma das zonas epicentrais localizou-se na povoação da Praia do Norte, onde não ficou uma casa habitável, mas não tendo provocado vitimas, pois a intensidade sísmica foi aumentando e a população pode abandonar as casas antes dos desmoronamentos. Houve também desmoronamentos nas ravinas a sul da Caldeira e na povoação de Espalhafatos. Ficaram destruídas cerca de 300 casas de habitação, avariadas quase todas as da metade ocidental da ilha, tendo sido necessário reinstalar 2000 pessoas. Na tarde de 24 de Outubro deu-se a última emissão de blocos incandescentes que saiam pela chaminé principal, cessando também as fumarolas da antiga Caldeira e tendo a laguna voltado ao seu aspecto primitivo. As correntes de lava consolidaram as camadas de areia e lapilli que se tornaram resistentes a acção do mar, aumentando assim a área da ilha do Faial em aproximadamente 2,4 km.

Vendo agora o local, dá que pensar: de repente cessa toda a vegetação e penetra-se numa área completamente estéril, árida e aterradora, como deveria ter sido a terra no principio do mundo. Só alguns canaviais, intrépidos, ousam furar aquela massa de terra estranha, magenta nalguns sítios, cinzenta noutros. O fantasma do farol em ruínas ajuda a manter bem presente o espectro daquela ameaça que durante quase dois anos deve ter aterrorizado toda a população do Faial (o Farol foi substituído por farol novo, mais recolhido no «terreno velho»).

De repente na crista pardacenta da nova terra vê-se uma minúscula silhueta de alguém em exploração a encosta que mal se consegue ver, mas que permite ter bem a noção da escala imensa daquela montanha ígnea ali recentemente formada.

Um enorme grafite escrito na aridez da encosta «Só Deus Salva» parece um apocalíptico aviso vindo das entranhas da terra. Só as gaivotas lá longe, sobrevoando a nova imensidão vulcânica parecem indiferentes aquele espetáculo.

Uma vigia de baleia espreita lá no alto da terra antiga, inútil duas vezes, já que o sinistro acontecimento lhe tapou a vista, como também agora desnecessária para tal pesca. E é com angustiante impressão que se abandona o local, com perspectivas muito mais agradáveis, como a Fajã do Norte Pequeno, a única que verdadeiramente existe no Faial, lindíssima, com capelinha datada de 1790, casas a condizer e praia de mar apetecível em baía recatada.

Retornando á estrada principal, logo se chega ao Miradouro da Ribeira das Cabras em delicioso recanto com mesas de pedra basáltica para merendar, com água corrente e tudo. Mas é a extraordinária vista que mais encanta: «... por entre flores, colinas, árvores de tenra folhagem (...) entre ramos floridos de hortênsias, por léguas e léguas de estrada, abraçando ribanceiras em curvas e lacetes.

Agora pode-se parar para admirar a escarpa da Ribeira das Cabras, abrindo a nossos pés uma depressão de alarmante profundidade. Vão mais de 400 metros a prumo, desde os nossos olhos á espuma do mar, lá onde a terra e a água parecem tocadas de fulgurações do inferno. Por entre tufos de hortênsias, espessas como o mato de charnecas virgens, espreita-se a medo o despenhadeiro, apoiando a mão onde é possível. Lá no fundo, tumultuam os calhaus calcinados, a terra negra e a branca espuma do mar que languidamente agora se espraia, cansado de tantos séculos de arremesso, com fúria voraz e destruidora.

No documentário das coisas grandes e raras que os Açores podem mostrar, quem nunca viu abismos, venha inclinar-se sobre esta assustadora amplidão, e poderá contar assombros de formas violentas, nunca vistos segredos de cor imprecisa e cismatica... Nestas terras marinhas, a última das maravilhas é sempre preterida pelo assombro daquela que ainda há de ver, por sucessivas jornadas de encantamento e surpresas sem conto.» (Hipólito Raposo, Descobrindo Ilhas Descobertas, pág. 341).

 Passada a placa dos Cedros ainda se pode observar de outro miradouro, novo abismo impressionante, excessos de verdura em depressão abissal, cavada pela Ribeira Funda. E chegando aos  Cedros e logo chama a atenção a sólida estrutura da torre da Igreja: «... Nos Cedros, aldeia bem assoalhada, reclama e compensa uma visita ao santuário quatrocentista: portada ogival, três arquivoltas suaves, com os intervalos ornados de figuras e flores. Aqui surgem na lembrança o rei D. Afonso V, o generoso Henrique e o Infante D. Fernando, com os primeiros cuidados e zelos do povoamento cristão.

Ao fundo da nave, imponente arco cruzeiro, aberto em torais góticos na última fase do estilo. Afamada terra de interesse etnográfico, esta freguesia dos Cedros.

Por dia de S. Marcos aqui se ordenava na mais audaciosa zombaria a celebre procissão dos maridos infelizes. Por tão grotesco realismo, nela se denunciava a tradição flamenga que felizmente se foi obliterando com os séculos, talvez por falta de matéria-prima...  Dá-se agora merecidos parabéns á moral e á paz domestica desta ilha. » (Hipólito Raposo, obra citada).

Infelizmente a Igreja sofreu recente restauro, talvez devido aos sismos de 57-58, mas difícil de engolir, as imagens setecentistas de Santa Bárbara, do Bom Jesus Milagroso e de Cristo Crucificado a estranharem o ambiente, púlpito, altar e pia baptismal todos corridos a azulejo moderno, uma pena !

Depois de se ver um engraçado império pintado a cale e datado de 1934, chega-se Porto Salão, magnífica reentrância de rocha a entrar pelo mar adentro e aproveitada por meio de rampa e muretes, para se ter ali construidquote o uma boa piscina natura que tão abundantemente enriquece toda a costa açoriana.

 E chegado aos Espalhafatos com um curioso frontal retorcido no seu império de 1926 mas batido pelo mais pomposo da Ribeirinha, povoação que vem na lista a seguir, com curiosa igreja neogotica, farol oitocentista a recortar-se sobre o vulto longo de S. Jorge, e longa descida por bagacina até um agradável porto de embarque com rampa para a água, pontão de mergulho e duche a preceito.

Um velho forno de telha em pedra a dissimular-se no arvoredo e um recatado império curiosamente ali deslocado, dão os apontamentos antigos aquela velha embocadura de mar.

Pedro Miguel é povoação singela que desdenha a proximidade do mar, voltando-lhe as costas. O mesmo já não se pode dizer do Almoxarife mais á sua magnífica praia de areia escura, povoação toda ela usufruindo da doçura plana daquela camaradagem marítima, rodeada de viçosas courelas e com uma espantosa igreja de duas torres afiladas, tendo no frontão o maior par de volutas que se vê em todo o arquipélago.

 Está-se a dois passos da Horta, terminando assim a volta há ilha.

 

       A Horta é deslumbrante a panorâmica da cidade quando se chega de barco, a imponente presença das torres de S. Salvador, do Convento de S. Francisco, do Carmo e de Nossa Senhora das Angustias impondo-se na sólida serenidade do casario, aurocarias e palmeiras a solenizarem de penteado verde a mancha branca do aglomerado e a grande marina, pejada de mastreação, a dar o aval cosmopolita á cidade.

E o Monte da Guia, em pose fronteira, contrapondo-se a Espalamaca, parecendo também querer dar-lhe a benção através da bizarra estrutura que lhe surge no topo, dentro do inacessível perímetro militar.

A Matriz ou Igreja de S. Salvador. Foi a antiga Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, que integrou a imponente fachada do Colégio dos Jesuítas. O inicio da construção deu-se em 1680 e sofreu alterações na frontaria, no decorrer do século XVIII. O retábulo em talha dourada, de excelente execução, faz brilhar o altar-mor. A capela de S. Paulo é revestida de painéis de azulejos setecentistas que sobem até á cornija. A capela do Santíssimo tem frontal em prata e estante de missal em jacarandá com embutidos de marfim, e a sacristia grande paramenteiro em pau-santo com puxadores de prata. Boa imaginaria.

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, tem imponente presença na cidade, no topo da grande escadaria, e encaixada numa espécie de baluarte, embora a fachada esteja um pouco deteriorada, tem prospecto barroco, embora tardio, pois a sua construção definitiva data dos finais de setecentos. Retábulos em talha dourada no altar-mor e na capela do Santíssimo, em apreciável trabalho. Rico revestimento em azulejos nas paredes.

O Convento e Igreja de S. Francisco. Prospecto algo bizarro, com a torre sineira da Igreja a desequilibrar-lhe a simetria da fachada, rasgada por quatro portadas iguais. Construção de 1696 mas já importunada por posteriores intervenções. No átrio algumas antigas pedras inscritas, colunas e fragmentos de igrejas demolidas. Interior de três naves. Retábulos em talha dourada de grande esplendor na capela-mor, cobrindo o tecto em caixotões é inserida de grande quantidade de pinturas e nas colaterais, de S. Pedro Gonçalves e da Ordem Terceira. Painéis de azulejos setecentistas de belo desenho, ilustrando passos da vida de S. Francisco. Numa dependência o Museu de Arte Sacra.

A Igreja de Nossa Senhora das Angustias. Construção seiscentista, edificada sobre capela do século XV. A Senhora das Angustias era a protectora dos náufragos, havendo no interior da Igreja detalhes dessa devoção. Talha Barroca nos altares. Interessante e imaginaria e presépio de Machado de Castro.

  Forte de Santa Cruz. Integra-se na linha das grandes fortalezas defensivas portuguesas seiscentistas em privilegiado debruço de baluartes angulosos sobre o porto da Horta. As muralhas são cobertas de espessas trepadeiras a venerar-lhe ainda mais a imagem da sua arcaica missão de defesa. Sobre a entrada uma pedra do escudo real tem a data de 1823. Tem uma pequena capela se Sto António integrada no reduto exterior. É hoje a Estalagem de Santa Cruz.

A Torre da Antiga Matriz ou do Relógio. No meio de aprazível jardim pejado de dragoeiros é o que resta da antiga matriz setecentista que foi demolida no século passado, depois de um sismo lhe ter arruinado as estruturas.

O Império dos Nobres. Talvez seja a primeira capela do Divino Espírito Santo do arquipélago, remontando assim ao século XVIII

A Sociedade Amor da Pátria. Notável imóvel art-deco, com características sui generis Açorianas. como são os frisos que correm junto a cornija, com alegorias de hortênsias.

O Museu da Horta. Situa-se na dependência central do Edifício do Colégio dos Jesuítas. Pintura, mobiliário, cerâmica, artes decorativas, ambientes açorianos, rendas de crivo, curiosidades e grande coleção de trabalhos feitos em miolo de figueira.

 Museu de Arte Sacra. Ocupando uma dependência do Convento de S. Francisco é um notável acervo colecionado ao longo de muitos anos pelo Padre Julio Rosa que com grande paciência e dedicação, conseguiu reunir centenas de imagens e alfaias religiosas de prata, provenientes de igrejas em ruínas, destruídas ou abandonadas. Na coleção incluem-se peças flamengas de grande interesse artístico. Núcleo de excepcional presença cultural, bem merecia local mais apropriado para a sua exibição.

Quinta de S. Lourenço. Na freguesia dos Flamengos situa-se esta frondosa quinta valorizada por casa senhorial, seiscentista, e capela. É presentemente uma estação agropecuária pertencente ao Governo Regional.

A  Marina da Horta. Doca de grande prestigio entre os navegadores e velejadores de todo o mundo, tem capacidade para 120 iates, quase sempre lotada, com os requisitos indispensáveis a uma marina internacional, com água, luz, instalações sanitárias, lavandaria, etc. São celebres as pinturas que ornam as paredes, o chão e os rochedos da sua «entourage», em centenas e centenas de desenhos a alardear a estadia dos barcos que ali se açoitaram, sempre a serem renovadas em visitas seguintes. Parecendo impossível encontrar-se um espaço livre para mais um desenho, a imaginação dos velejadores sempre consegue lobrigar mais um recanto para a sua mensagem.

O Peter, Café Sport. E o «alter ego» da marina, o indispensável ponto de encontro dos velejadores internacionais e dos habitantes da Horta, com foros tão característicos que já e um autentico ex-libris da cidade. O ambiente é fabuloso e o serviço, longe de ser blaze, é impecável. No primeiro andar, em vitrines «fin de siecle» exibe-se uma notável coleção de dentes e de ossos de cachalote, gravados e trabalhados, autentico museu de «scrisms-haw», patenteando os antigos e intrépidos tempos da caça á baleia.

O Monte da Guia. Para se ter uma perspectiva da cidade da Horta oposta á da Ponta da Espalamaca e não menos bela, é indispensável subir ao Monte da Guia, através do istmo e do Monte Queimado. Logo se deparam trechos e pormenores de grande encanto como são a Caldeira do Inferno que se abre em pinça para o lado do mar, a capelinha setecentista de Senhora da Guia, reconstruída já neste século, a misteriosa e bizarra estrutura do radar no alto do Monte, com acesso vedado, e a espantosa baía sobre o Porto Pim, com magnífica praia e os restos de fortificação seiscentista, reduto de artilharia em continuidade de defesa costeira e da baía.

O Forte de S. Sebastião. Baluarte seiscentista que fazia parte das fortificações do Porto Pim, defendendo do invasor a entrada da baía. Ainda espreitam através das ameias da couraça alguns canhões em ferro.

 

HISTORiA

 

       A Insulae de Ventura aparece assinalada em cartas anteriores ao séc. XV, mas o seu povoamento dá-se na segunda metade daquele século. Em 1468 um grupo de flamengos liderados pelo fidalgo Josse Van Huerter estabeleceu-se na ilha na localidade que viria a designar-se por Horta, em honra ao nome daquele fidalgo. O vale da freguesia de Flamengos ainda remonta a essa origem e foi onde primitivamente teriam habitado. Em 1490 a colónia flamenga já atingia 1500 pessoas. O incremento da caça á baleia dá-se no século de setecentos e a ilha ve-se invadida por numerosos contigentes americanos dessa actividade que procuram abrigo no Porto Pim onde também são engajados arpoadores e remadores da ilha, com fama de temeridade, audácia e destreza. Em 1832 a Horta recebe a visita de D. Pedro IV e em 1833 passa a ser cidade, por mercê real, uma vez que aderiu a causa liberal. As obras do porto de mar e da doca tiveram inicio em 1876. Em breve tempo o porto da Horta tornou-se famoso, sendo o mais importante porto da escala na travessia do Atlântico, constantemente visitado por veleiros e iates de todo o mundo. O primeiro avião a atravessar o Atlântico foi um hidroavião NC4 comandado pelo capitao-tenente da marinha americana A. C. Read, que amarou na Horta em 1919. Desde logo se tornou imediata a importância do arquipélago como escala das rotas transatlânticas: seguiram-se os vôos da Lufthansa com os famosos Junkers que eram catapultados da ponte de um navio, e a visita do celebre DO-X pilotado pelo comandante F. Christiansen em1932.

       Em 1933 foram as celebres esquadrilhas do italiano Ítalo Babo que, no regresso da sua dupla travessia do Atlântico num total de 24 aviões, amararam no Faial, tendo sido delirantemente aclamados pelo povo, consciente já de constituir a sua terra um ponto de encontro fundamental para o incremento das viagens aéreas transatlânticas. No mesmo ano deu-se a visita de Charles Lindbergh que, com sua mulher, estudaram futuras bases para as rotas comerciais entre a América e a Europa. Lindbergh, convencido ser a Luftwaffe invencível, apos-se tenazmente a entrada dos Estados Unidos na 2 Guerra Mundial, distanciando-se por algum tempo do entusiasmo dessa ligação intercontinental. Mas acabou por se convencer e assim escrevia no prefacio do livro de sua mulher, «Flying around the North Atlantic»: (...) O envolvimento dos Estados Unidos deu uma nova importância ás ilhas atlânticas. Em Junho de 1942 Hitler tinha planeado um encontro com o desembarque dos americanos nos Açores, usando submarinos, mas um ano depois a situação modificou-se. A Inglaterra invocou a Antiga Aliança e requereu apoio nos Açores. Quando lhe foi concedido os alemães protestaram, mas não actuaram. Sob o acordo açoriano, Portugal recebeu a garantia da integridade das suas possessões da parte dos ingleses e dos Estados-Unidos (...)» Enfim, os Açores, (e particularmente a cidade da Horta) na historia da aviação, com a sua privilegiada situação no paralelo Nova Iorque-Lisboa e quase a meio do Atlântico, foram um providencial recurso muito demandado por aqueles bravos que incrementaram as viagens aéreas na primeira metade deste século.