ILHA GRACIOSA
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ILHA GRACIOSA
Depois de se
sair de Santa Cruz, e do Miradouro do Alto
Quitadouro que apercebemo-nos em primeira
mão da beleza da Graciosa. Presidida pelo par de picos da
Caldeira em orgulhosa soberania, secundada em segundo plano pelo monte e Nossa Senhora, a vista entretem-se pela
timidez branca de diversas povoações: lá vê Fonte do Mato e mais alem, arredondando-se
pela baía que 1he ofertou o mar e a desfiar-se em aglomerado mais numeroso, a Vila da
Praia, enfrentando, bem implantado no oceano o seu Ilhéu (Ilhéu da Praia), que em tempo
de D. João III foi doado ao capitão Bento Furtado de Mendonça.
Mais perto, mais
chegados á vista vê-se os lugares de Lagos e dos Fenais. «E por todos os lados se
agrupam os cerrados de paredes escuras, abrigadores de terra lustrosa, sempre bem
alinhados, a formar quadriculos. Estendem-se esses tapetes de retalhos multicores,
vermelhos aqui, amarelos, verdes alem, e com tanto esmero desenhados que parece neles
entrarem somente as mãos dos homens para tecer estas redes coloridas, porque o animal
seria ali dentro o tumulto. Estes currais, na expressão do povo, impostos pela
experiência do clima, servem de anteparo contra os requeimados bafos do vento salino e
contra a fúria dos tufões, protegendo as videiras, a horta e as novidades de Primavera.
E assim se prolongam insistentemente para a ironia do tempo.» (Hipólito Raposo,
Descobrindo Ilhas Descobertas, p. 102)
Pelo caminho da ermida de Santana chega-se a uma
casa quinhentista, na verdade da pedra magenta e nua, das mais antigas da Graciosa, o
Lugar do Recebimento. Era aqui que
o seu titular recebia as comederias dos rendatarios.
A
Vila da Praia, lindo correr de casas a acompanhar a muralha do mar, bom porto de abrigo
já de muro bem guarnecido de «memórias» deixadas pelos tripulantes dos veleiros ali
aportados, e a igrejinha de Nossa Senhora da
Guia, muito atenta, para ali Ihes dar a benção. A Matriz tem certa grandiosidade e a
sineira insere-se no frontão que abrange toda a fachada, na ausência de qualquer torre.
Interior austero de três naves com retábulo barroco e tecto pintado na capela-mor.
Alguns bons móveis sacros incluindo um cadeiral e pequena coleção de imaginaria. Um
edifício, legado em 1908 a diocese pela benemérita Isabel Maria de Mendonça Pacheco e
Melo, em nobreza de frontaria de 9 janelas de sacada, é um dos mais representativos da
vila. Deixando a vila, em breve se vê, em frente de margem dócil de verdura que desce
até ao mar, os dois ilhéus dos Homiziados que contam uma tragédia quinhentista, de um
grupo de jovens que para lá foram de barco e, levantando-se uma borrasca de vários dias,
ali tiveram de morrer a fome. E a tradição, por vezes injusta, assim os chamou por se
identificarem com os condenados asilados, fugidos á justiça. Em promontório elevado,
vela o farol da Restinga.
A
povoação do Carapacho já no topo da ilha, relacionada com uma antiga colónia de
algarvios (de Moncarrapacho). A aldeia prolonga-se paralela ao mar e tem termas de águas:
«A água brota e escoa-se ao nível do mar e a sua temperatura, por mistério da química
vulcânica ou neptuniana, parece que se eleva com o calor solar no seu caudal
subterrâneo. Vejam agora os sábios na escritura... As arribas, para um e outro vento,
são descarnadas, feridas, latejantes de tons violáceos, a dar-nos vista de uma derrocada
de ontem, grande ruína que irá continuar e sem descanso. Para alem da escarpa golpeada,
a pique, em carne viva, defronte do ilhéu e de rochedos esparsos, cobertos de lapas,
abre-se a angrasinha do Altar, desembarcadouro dos descobridores, onde, segundo a
tradição, foi arvorada a cruz e rezada a primeira missa» (Hipó1ito
Raposo, Descobrindo Ilhas Descobertas, pág. 197).
O
Carapacho tem duas piscinas naturais e uma curiosa fiada das sete casas, de antigos
veraneantes do século passado.
A
localidade da Luz em face do mar, com a bela Igreja
de Nossa Senhora da Luz, do século XVII (reconstruída no XVIII), de uma só torre, «com
nobres volutas seiscentistas na frontaria», e forte cantaria de basalto a adorna-la, de
ampla escadaria ao pé da estrada. Assinalável altar-mor e o tecto do coro.
Partindo
para o interior da ilha rapidamente se chega aos topos da ilha, nas imediações da Serra
Branca, a abranger amplas vistas para lá do aprumo dos currais. Alem, a Caldeira em
silhueta escura, em baixo branqueja a povoação da Luz e a esquerda eleva-se a Serra
Dormida em elevada variação de constastes pois ali havia uma ermida muito antiga da qual
a serra tomou primitivamente o nome, trocando-1he o sentido. O vento aqui sopra forte, e
constante e dois monstruosos mas elegantes moinhos eólicos NORDTANK pertencentes a EDA, o
Parque Eólico da Graciosa, tiram bom proveito disso, dando insólita nota de sofisticado
progresso a agrura despida e telúrica do local. Com efeito, está-se no local da
Caldeirinha de Pero Botelho (não sendo tão caldeirinha como isso, pois o abismo sobre o
qual nos debruçamos é de respeito) e circundando o perímetro vai-se tendo uma
panorâmica magnífica, quase global, de toda a ilha: vê-se o Tanque, povoação que
tomou o nome de um tanque quinhentista de reserva de água (tão importante na altura, já
que a ilha vivia a mingua de água, tendo só resolvido há pouco tempo esse problema, com
os furos artesianos); á esquerda, mais junto ao sopé da montanha, o aglomerado de
Ribeirinha; depois Terra do Conde e, alem, entre dois cerros, o Bom Jesus; mais á
esquerda estende-se a Vitória até ao mar. E mais á frente, as localidades das Almas e
Guadalupe antecedem a Santa Cruz, todo o casario no sobressalto do azul atlântico, a
esparramar-se no horizonte sem fim. E ao descer, passa-se pela modesta ermida da
Ribeirinha, por Tanque, e pela Capela de S. Miguel Arcanjo, das Almas, até se chegar ao
Guadalupe, a grande aurocaria que assinala a solene presença da Igreja de Nossa Senhora
de Guadalupe, bem carregada de cantaria escura e barroca, exemplar típico da arquitectura
religiosa açoriana... E regressa-se a Santa Cruz.
Partindo
por outros caminhos sobe-se ao monte da Ajuda onde as três ermidas de S. João, S.
Salvador e de Nossa Senhora da Ajuda, em rigorosa simetria sobre dois mamelões
acolchoados de verdura velam pela paz e bonomia da linda vila de Santa Cruz. Visitando
aquela que baptizou o monte e a mais antiga. De abside «(...) abobadada, com nervuras a
rematar um circulo ornado de oito bocetes e rosetão central, e sustida por gigantes.
Deveriam eles acompanhar todo o edifício, pois ainda se conservam dois a amparar os
cunhais de frontaria, agora já descaracterizada pela reconstrução do século XVIII. Na
cimalha também se vêem alguns merlões (7) já meio desfeitos pela erosão, mas que
auxiliam a reconstituir o primitivo conjunto. Aqui, numa ilha, seria fácil atribuir estas
obras (e outras que deveria haver) a um período já avançado de Quinhentos, para a
hipótese de vermos nelas casos de estilo manuelino arcaico se não tivéssemos ainda de
pé uma porta ogival que liga a abside desta ermida com a sacristia. Tal facto induz-nos a
fixar a época das construções no primeiro quartel do século. Em nenhum dos ornatos se
descobre qualquer representação da conhecida emblemática do Venturoso talvez porque a
pedra empregada não consentisse grandes lavores decorativos.» (Hipólito Raposo,
Descobrindo ilhas Descobertas, p. 124). De assinalar também na pequena capela são os
azulejos setecentistas azuis e brancos de bom desenho com os símbolos marianos do sol e
da lua e representação de passos da vida de Nossa Senhora, curiosamente datados de 1751
em recortes implantados na cantaria ogival.
É
de Surpreender do outro lado do monte que é afinal outra
pequena cratera ao fundo da qual se encontra uma pequena arena tauromaquica. Em dias
claros facilmente se avista a Terceira e de costas voltadas para a capela de S. João
vemos lá longe o lugar das Fontes onde existiam «os velhos depósitos de água, as
Fontes, que impedem de morrer a sede o povo de Santa Cruz.» (Hipólito Raposo, idem). Por
detrás eleva-se, em retalhos de cultura, a serra das Fontes. «Aqui perto da vila de
Santa Cruz esta tão nomeada serra das Fontes amplia o panorama do Monte da Ajuda, e a
descoberto ficam, para as bandas do norte e poente, os ilhéus do Barro Vermelho, o morro
informe e encarvoado do Pico Negro, a coluna branca do farol da Ponta da Barca, eterno
solar dos garajaus, os serrados de vinhedo nas chãs do Calhau Miudo. E vai-se abrindo
vista para o Pico do Bom Jesus, para a distancia luminosa da Vitória, cuja ermida ao céu
ficou agradecendo a derrota dos piratas argelinos; e mais longe, em fervidas neblinas, os
ásperos picos do Porto Afonso e Jorge Gomes ao lado do moinho da Ribeirinha, para alem do
qual se estende ate as asas do sol poente, a imensidade azul e inquieta do oceano. O olhar
embebe-se em farandolas de luz adolescente nas baixas lavradas da serra Branca, nas
vertentes, espraiadas em ondas verdes do pico do Timão e nos píncaros da serra Dormida;
bem se divisam as casotas da Cova, A feiteira, Pedras Brancas, e para mais longe, a aldeia
de Luz com as suas árvores de fruto e sombra, a regalar as vivendas.» (Hipólito Raposo,
Descobrindo Ilhas Descobertas, p. 224)
Descendo
da Ajuda e prosseguindo para nordeste chega-se á enseada rochosa do Barro Vermelho, com
alguns locais de aprazível recato para piqueniques. Logo depois chega-se ao farol da
Ponta da Barca, mar de arribas agrestes amaciadas pela transparência do mar, e onde surge
a aparição telúrica de uma baleia a fingir de ilhéu, em semelhança de assombro e de
susto.
No
Pico Negro a elevar-se sobre a escarpa vê-se ainda uma abandonada vigia de baleia. Perto
levanta-se a capelinha da Nossa Senhora da Vitória infelizmente mal recuperada no recente
restauro que sofreu.
Descendo
a Porto Afonso, nova enseada protegida dos arrimos do mar e onde, no fundo da arriba,
algumas grutas de artificio servem para recolha de embarcações.
Num
desvio para o interior, atravessando uma zona de pomares, encontra-se o solar rústico
quinhentista, de chaminé imponente, do Barão da Fonte do Mato que antecede a povoação.
E já estamos no topo do monte da Senhora da Saúde em sobranceria de benção sobre a
vila da Praia, com a igreja de costas ao mar e ao seu ilhéu, tufado de verdes mas
deserto. Prosseguindo, chega-se a um ponto onde a linha do horizonte acerta com um vulto
acinzentado, a parecer uma longínqua continuação da ilha. Mas não tem a Graciosa
dimensão para ir buscar terra tão longe: é
a ilha de S. Jorge.
O
terreno descarnado torna-se mais agreste á medida que nos vamos aproximando da Caldeira.
Um túnel dá acesso ao âmago da imensa concavidade e sentimo-nos de repente envolvidos
por uma vegetação pujante, de faias, criptomerias, incensos, fetos e outras plantas que
naquele exagero de densidade se julga endémicas, nascidas ali desde o principio do mundo.
Mas não é assim. A vegetação da Caldeira foi plantada recentemente e as raízes das
árvores na sofreguidão da água tem diminuído o nível da lagoa da furna do enxofre.
Por morte recente de dois marinheiros envenenados pelas emanações de enxofre da Furna, o
acesso a mesma encontra-se encerrado, pelo que recorro á memória do povo para descrever
o melhor possível: «Avançando contra o vento de estreita portela, vamos debruçar-nos
para uma depressão de aparência elipsoidal, profundo covão de paredes requeimadas do
fogo, a mostrar, por mais de meia légua nas vertentes norte-sul, as chagas vivas e roxas
dos rochedos. Nenhuma casa ou cabana se descobre à vista, nem árvore de sombra ou de
fruto vegeta nesta concavada amplidão, debaixo do céu esfumado de azul e rosa, a furtivo
capricho do sol que lá por longe anda a flutuar sobre ondas de nuvens efêmeras. Por
estes cerros e colinas estarrecidas, segundo informa o coro de pastores e burriqueiros,
vão correndo as arestas do Rimboto, recortado solidamente em luz fria, o Carreiro e o
Monte do Facho onde noutros tempos. com lume de lenha se acendia o farol para os navios e
por onde agora se encadeia a linha das
alturas, até atingir a maior eminência no Sul, á extrema direita dos que para lá
deixam errar os olhos. Da primitiva convulsão, a recordar indomáveis fúrias, portadores
de morte, se vida já nascera em terra ou mar, ficou a cinza destas escorias, aqui restam
os ossos de tantas pedras, a maravilhar a vista, por desolado e revolto cemitério. Ao
longo dos alcantis, asperamente aprumados, a rebrilhar em tons de violeta e verde, ressoam
agora, como teimosos ecos de raivas da pirosfera, os nomes da Furna do Luis, da Furna do
Anel, a Tapada, a Vermelha, a do Queimado, a Furna do Gato, a Furna da Albarda, a Furada,
a da Lavrandeira e a do Castelo ou da Maria Encantada, pequenos respiradouros que ficariam
abertos, quando o pico do vulcão já abatera, e cerrara as suas fauces a incendiada
cratera. Lá para o fundo, no centro das erupções dessa bocarra, há milênios
silenciosa, alarga-se nos dias de agora em paul, todo revestido de vegetação herbácea,
espessa e resistente, como rede metálica,
sobre a qual, desta altura se vêm vacas do tamanho de ovelhas, e atras delas andar
lentamente pequenos anões perdidos na distancia, a espera de ordenhar o leite. Mas para
penetrar na Furna do Enxofre, é preciso andar o caminho para o fundo deste recôncavo por
vereda de enroscadas curvas, até ao limite em que se acelera o declive do carreiro
íngreme e tortuoso. (...) Para a escuridão da gruta, a descida faz-se hoje com
segurança, por bem lançados degraus em caracol, com seus patamares a prevenir ou a
suavizar a canseira dos que por lá descem e sobem, e com sucessivas e regulares janelas a
alumiar a firmeza dos passos dos robustos e dos tropeços. (...) No seio desta cripta de
majestade funerária, como câmara de rito faraónico, a cor não se define, fere-se torvo
duelo de luz e de trevas em que nem o sol, nem a lua, as estrelas ou o arco-íres podem
intervir para moderadores, porque o esplendor do céu, se por lá existe, jamais aqui foi
visto a cintilar.
E
não sabe a gente o que há-de dizer a este silencio mortuário, sem dor nem prazer de
alma, porque só pode gozar ou sofrer o que vive, e alegrar-se quem se confia a
esperança. Mas no interior desta caverna de sombras taciturnas, a suspirar ou a descrer
da luz, atraídos ainda mais pela magnética sedução do ignoto, entre penumbras de
irreal transparência, anda-se trezentos passos a beira de água por meio de agudos
calhaus. Então, todo o rumor ali cessa para melhor se ouvir, teimosamente, como protesto
do silencio, o pipilar da chuva subterrânea, ao mesmo tempo em que o instinto leva a
levantar os olhos para a distante claridade das aberturas, não vamos ficar para ali
petrificados. (...) Não ha vida vegetal ou animal, e só em recessos desconhecidos de
onde espreitam resteas de luz exilada, algumas pombas das rochas arrulham e gemem de amor.
Neste
sepulcro de rugidos ígneos, essas vozes asseguram que se está em mansão pacifica, pois
nela não habitam nem poderiam morar os homens, se não fosse para encontrar refugio de
remorsos ou sossego e quietação de almas errantes que para sempre quisessem sumir-se na
escura morte de um abismo sem astros. (...) Nesta estática mudez de pedra e água que
nada se ouve, e menos se vê do que se sonha, quedamo-nos sem poder perscrutar o segredo
daquela intimidade telúrica, temos medo de falar, para não sentir a voz logo absorvida
por silencio frio, opaco silencio que não perturbam alegrias nem gemidos, parecendo que
nele chegara a morrer a própria respiração das almas. (...) Enquanto as horas esmorecem
e não passam, voltam-se os olhos para os olhos da gruta, caminhos da claridade,
respiração do ar a defender-nos do bafo de enxofre que de uma poça teima em exalar-se;
e a esperança de ver terra e céu clareia agora pelo vão de um pórtico de arco
recortado, sustido por uma ombreira
de rocha viva e pela cantaria do escadorio. Para alem do poço por onde se regressa á
luz, algumas parietárias verdejam, a atestar que lá fora a vida continua por graça e
milagre do sol. (...) Lugar este para onde se vem com suspeita e de onde se volta sem
saudade, limbo de petrificado olvido, domínio da morte que a viva curiosidade do homem
devassou para tão misterioso espaço olha-se sem dele nada poder fazer de proveito, senao
admirar em tal prodígio a grandeza e o poder do Criador. (Hipólito Raposo, Descobrindo
Ilhas Descobertas, p. 145)
De novo ao caminho de retorno regressados, a rodear
a caldeira, e de posição mais cimeira que vê de novo o farol da Restinga cercado de
cerros, sobrepondo-se ao Carapacho e as ilhas da Terceira e de S. Jorge, como se
esperassem o seu facho de abraço luminoso. E por sua vez, mais a frente, lá vê de novo
a Senhora da Saúde, presidindo á paisagem, encanto de maravilha de vistas a entender-se
até a vila da Praia e ao seu eterno ilhéu.
E as Fontes, lá
se vêem bem aperaltadas pelos serviços florestais o moinho das Fontes, em esforço de
conservação e um dos poucos moinhos de pão de características flamengas ainda
existentes na ilha. E e a última imagem que se leva desta encantadora Graciosa.
É obscura a
data do seu descobrimento, provavelmente feito por navegadores vindos da Terceira. Vasco
Gil Sodré foi seu 1º povoador, tendo construído a sua casa no Carapacho, local onde
desembarcou. Mas não conseguiu obter a donatário da ilha, cuja parte norte foi concedida
a Pedro Correia da Cunha, cunhado de Cristóvão Colombo, e a sul, adjudicada a Duarte
Barreto. O povoamento posterior recebeu gente do Minho, das Beiras e da Flandres e a
prosperidade da ilha depressa se verificou, tendo Santa Cruz recebido foral em 1486. Praia
só recebe foral em 1546. Nesta altura já a Graciosa exportava trigo, vinho, cevada e
aguardente. Em 1654, vindo do Brasil, desembarcou na ilha o Padre Antonio Vieira, depois
de um naufrágio perto da ilha do Corvo. Foi
recolhido por um corsário holandês que
da carga do navio fez boa presa, ficando os náufragos, em numero de 41, despojados de
roupas e haveres. Vieira permaneceu durante dois meses na llha, durante os quais escreveu
para Amesterdão ao judeu Vuneu & Cnvta enviando-lhe credito para resgate dos livros e
papeis que tinham sido levados pelo pirata. Deixou na Graciosa a devoção do Terço do
Rosário que ainda era desconhecido. Em 1791 a Graciosa recebeu a visita de Chateaubriand
a caminho da América e fugindo da revolução francesa. Em 1813 foi a vez de Garrett,
ainda menino, em visita ao seu tio Dr. João Carlos Leitão. Ainda existe em Santa Cruz a
casa desse juiz, assinalada por lapide. No seu iate Hirondelle visitou por sua vez a ilha,
o Príncipe Alberto do Mónaco, dedicado aos estudos de oceanografia, tendo visitado a
furna da Caldeira.
Santa Cruz.
Povoação que nos encanta pela harmonia e tranqüilidade que dela emana: o amplo largo do
Rossio com os dois grandes pauis, um para os habitantes e outro para o gado, reflectindo
ainda o que até ha pouco tempo foi o flagelo da Ilha, a falta de água, já que na ilha
não existiam nascentes, fazendo-se a reserva da água das chuvas em cisternas nas
próprias casas ou pauis públicos; as casas senhoriais, aurocarias e ulmeiros da Praça,
e os monumentos. Matriz de Santa Cruz. Templo de imponente prospecto e profusa cantaria na
fachada, construído no século XVI, com grandes alterações no XVIII. No altar-mor logo
sobressai o notável retábulo de seis painéis quinhentistas sobre o tema da Cruz de
Cristo, possivelmente da autoria de Cristóvão de Figueiredo: Caminho da Cruz, Calvário,
Deposição, Invenção da Cruz, Exaltação da Cruz e Pentecostes. Nas obras posteriores
que a Igreja sofreu, o painel do Calvário transitou para o convento de S. Francisco
(tendo regressado á Igreja) e o painel do Pentecostes sofreu um corte para caber no alto
do retábulo. A ordem de colocação que se encontra no presente não é a primitiva. Os
altares laterais tem boa talha barroca e a igreja dispõe de bons móveis e alfaias,
sobressaindo uma estante de missal de embutidos e um candelabro em prata. Boa imaginaria e
pintura (árvore de Jesse) e painéis de azulejos setecentistas de bom desenho.
Cruz de S. Sebastião ou Cruzeiro do Porto da
Barra. Na esfera que assenta no topo da haste monolítica com cerca de quatro metros ve-se
um letreiro quase ilegível com o nome de António de Freitas. Num dos cinco degraus
lê-se: foi posto em1520 removido em1867. O. P. Diz-se que a haste, feita de pedra
diferente da basáltica é suficientemente flexível para resistir aos temporais e
tufões, o que não aconteceria com a pedra vulcânica.
Igreja
de Santo Cristo. De raiz quinhentista tem boa imaginária, destacando-se o Senhor Santo
Cristo dos Milagres.
Capela
do Corpo Santo. Singela construção assente na orla do porto da Calheta, era a capela a
que recorriam os pescadores nas suas preces.
Ermida
de Nossa Senhora da Ajuda. Provida de merloes, tem tecto de nervuras entre outras
maravilhas.
Museu
Etnográfico. Alfaias da antiga actividade agrícola e de cultura da vinha, ambientes
objectos caseiros, uma figura de proa. Barracão das Canoas. Chalupa baleeira com os
artefactos da antiga pesca da baleia.
Na
Praia a Igreja de S. Mateus. Prevalece a construção oitocentista sobre a primitiva do
século XVI. Retábulos de talha dourada na capela-mor e laterais. Imagens flamengas de S.
Miguel e de S. Pedro.
Na
Vitória a Ermida de Nossa Senhora da Vitória. Construída para comemorar a vitória
sobre um ataque de piratas argelinos, sofreu uma remodelação recente que 1he tirou o
primitivo encanto. Imagem seiscentista da Padroeira.